Questionada sobre a utilidade prática de conteúdos ensinados nas escolas, secretária da Educação do Tocantins defendeu que o papel da educação não é apenas ensinar aquilo que será usado de forma imediata, mas desenvolver estruturas de pensamento capazes de preparar o estudante para problemas mais complexos ao longo da vida.
Uma pergunta aparentemente simples abriu espaço para uma das discussões mais profundas da entrevista da secretária de Estado da Educação do Tocantins, Celestina Maria Pereira de Souza, no Poderoso TV:
“Por que eu tenho que aprender a fórmula de Bhaskara se provavelmente nunca vou usar isso na minha vida?”
O questionamento feito pelo apresentador traduz uma dúvida que atravessa gerações de estudantes. Afinal, por que memorizar fórmulas, estudar equações, interpretar conteúdos científicos ou mergulhar em conhecimentos que aparentemente não fazem parte da rotina adulta?
Celestina respondeu deslocando a discussão daquilo que o aluno “vai usar” para aquilo que o aprendizado faz com a capacidade de pensar do aluno.
Segundo ela, nem todo conhecimento adquirido na escola precisa ser reproduzido literalmente na vida adulta para ter cumprido sua função.
“Você não vai aprender tudo para aplicar.”
A partir daí, a secretária construiu seu argumento: quando um estudante é colocado diante de um conteúdo mais complexo, ele não está apenas aprendendo a resolver aquela determinada questão. Está exercitando formas de raciocínio, relações lógicas, capacidade de interpretação, organização mental e resolução de problemas.
No exemplo usado durante a entrevista, Celestina explicou que aprender uma fórmula matemática pode ajudar a estruturar o pensamento para que, futuramente, o indivíduo consiga enfrentar situações completamente diferentes daquela equação.
“Quando você aprende a fórmula de Bhaskara, você estrutura o seu pensamento para aprender coisas complexas.”
A pergunta era sobre uma fórmula. A resposta acabou sendo sobre o propósito da escola
A discussão tocou em uma questão central da educação: a escola deve ensinar somente aquilo que possui aplicação cotidiana imediatamente identificável?
Para Celestina, a resposta é não.
Reduzir o currículo apenas ao conhecimento diretamente aplicável significaria ignorar uma das funções mais importantes da formação escolar: desenvolver competências que permanecem mesmo quando a pessoa já esqueceu detalhes específicos do conteúdo estudado.
É semelhante ao que acontece com a leitura, a interpretação de textos, a História, as Ciências ou a própria Matemática.
Uma pessoa não acorda pela manhã separando sua rotina em disciplinas.
Ninguém pensa:
“Agora vou utilizar Matemática.”
“Agora vou utilizar Português.”
“Agora chegou o momento de usar Ciências.”
O conhecimento adquirido ao longo da formação se mistura e passa a integrar a maneira como aquela pessoa interpreta informações, toma decisões, formula hipóteses e procura soluções.
Foi justamente esse o ponto enfatizado pela secretária.
“Você aprende e desenvolve sem nem saber em que momento da sua vida você construiu.”
De Bhaskara para problemas que ainda nem existem
A parte mais interessante do raciocínio apresentado durante a entrevista talvez esteja justamente aí.
Um estudante pode nunca mais precisar calcular manualmente as raízes de uma equação do segundo grau depois de deixar a escola.
Isso não significa necessariamente que o tempo dedicado à aprendizagem tenha sido perdido.
Ao lidar com uma equação, o estudante precisa identificar informações, compreender relações entre elementos, seguir uma sequência lógica, testar possibilidades e chegar a uma conclusão.
Em outras palavras, existe o conteúdo que está sendo estudado e existe a capacidade mental exercitada durante o processo.
São coisas diferentes.
Foi essa distinção que mudou o rumo da conversa no Poderoso TV.
O apresentador iniciou o assunto defendendo a possibilidade de uma educação mais direcionada às habilidades individuais dos estudantes e questionando o espaço ocupado por conteúdos cuja utilidade prática nem sempre é evidente.
Depois da explicação de Celestina, reconheceu:
“Você acabou de me resgatar. Porque eu já estava convertido aqui de que realmente tem coisas que não eram necessárias.”
A secretária respondeu:
“Tudo é necessário.”
E completou:
“Uma hora ou outra você pode até não aplicar verdadeiramente daquela forma, mas aquele conhecimento já se transformou em uma competência e você resolve outro tipo de problema porque aprendeu aquilo lá atrás.”
Uma resposta que revela uma visão de educação
Mais do que defender uma fórmula matemática, Celestina apresentou uma concepção de ensino.
Na visão exposta durante a entrevista, educação não pode ser medida apenas pela pergunta: “Onde vou usar isso?”
Ela também precisa responder a outra questão:
“Que tipo de capacidade esse conhecimento está desenvolvendo em mim?”
Essa mudança de perspectiva transforma completamente o debate.
A Matemática, nesse contexto, deixa de ser apenas uma coleção de fórmulas. O Português deixa de ser apenas um conjunto de regras gramaticais. A História deixa de representar apenas datas e acontecimentos.
Cada área passa a contribuir para a formação de repertório, interpretação, raciocínio, comunicação e capacidade de resolução de problemas.
Educação não é somente preparar para o que já existe
É importante que a escola reconheça talentos, vocações e habilidades específicas de cada estudante. Também é necessário discutir metodologias, currículo e a conexão entre aquilo que se ensina e a realidade vivida pelos alunos.
Mas a resposta de Celestina introduziu outro elemento nessa discussão:
formar uma pessoa exclusivamente para aquilo que já sabemos que ela fará no futuro pode significar prepará-la apenas para um mundo que já existe.
O estudante de hoje enfrentará profissões, tecnologias, problemas e decisões que talvez sequer possam ser previstos integralmente pela escola atual.
Nesse cenário, possuir repertório e capacidade para compreender situações novas pode ser tão importante quanto dominar uma habilidade imediatamente aplicável.
Talvez seja justamente aí que esteja a resposta para a velha pergunta sobre Bhaskara.
O objetivo não é necessariamente fazer com que alguém passe a vida procurando o “delta” de alguma coisa.
Pode ser ensinar aquela pessoa a olhar para um problema complicado e não recuar simplesmente porque ainda não conhece a resposta.
No Poderoso TV, uma fórmula que muitos aprenderam na escola e depois esqueceram acabou servindo para uma discussão bem maior:
afinal, a educação existe apenas para ensinar o que vamos usar ou também para ampliar aquilo que somos capazes de compreender?
Assista ao momento completo
Quer ver como essa conversa aconteceu e ouvir a resposta de Celestina Maria na íntegra?
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Porque algumas perguntas começam com uma simples fórmula de Matemática e acabam provocando uma discussão muito maior sobre educação, conhecimento e o futuro dos nossos alunos.










